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Perder jovens para o tráfico é perda de toda a sociedade

Por Adriana Ramalho

Vivemos uma tristeza conhecida: nossos jovens, sobretudo os que crescem à margem da cidade, são sistematicamente aliciados pelo tráfico de drogas e pelo crime organizado. Não se trata de um problema moral isolado, mas de um sintoma e um motor de desigualdade, ausência de políticas públicas eficazes e do enfraquecimento das redes de proteção que deveriam cercar crianças e adolescentes. A solução exige entender a gravidade do fenômeno e agir com equilíbrio: repressão inteligente onde for necessária, mas sobretudo prevenção social, inclusão e cuidado.

Dados do Instituto Igarapé mostram que o avanço do crime organizado não é abstrato: facções expandiram-se para territórios antes poupados — na Amazônia Legal, por exemplo, a presença de grupos ligados ao narcotráfico já foi registrada em pelo menos 260 municípios, um crescimento estimado em 46% entre 2023 e 2024. Esse processo cria um ambiente em que jovens se tornam tanto recrutadores quanto alvos diretos. Esse avanço territorial significa que a oferta de “trabalho” fácil e com aparência de pertencimento encontra populações vulneráveis em contextos com pouca escola, emprego e serviços públicos.

Quando falamos em “recrutamento”, é essencial não reduzir a explicação a escolhas individuais. O tráfico atua como rede social paralela: oferece dinheiro imediato, poder simbólico e, muitas vezes, sensação de proteção — tudo substituindo o que o Estado deixou de prover. Estudos e avaliações de programas brasileiros mostram que políticas públicas bem desenhadas conseguem quebrar esse ciclo. Programas de prevenção social que combinam atendimento psicossocial, inserção educacional e oportunidades de trabalho juvenil apresentaram impactos reais sobre homicídios e vinculação de jovens a grupos violentos.

Quais políticas públicas funcionam — e por quê?

1.     Prevenção focalizada e rede de proteção local

A evidência internacional e nacional indica que intervenções direcionadas a territórios de maior risco e a jovens em situação de vulnerabilidade trazem resultados superiores às abordagens dispersas. Isso inclui unidades de prevenção comunitária, atendimento psicossocial integrado às escolas e a presença de profissionais (não apenas policiais) que conheçam as dinâmicas locais. O sucesso do Fica Vivo! demonstra que intervenções complexas podem reduzir homicídios e ofertar caminhos alternativos para jovens.

2.     “Pulling levers” — dissuasão focada e alternativas reais

Estratégias como a Operation Ceasefire (Boston) combinam comunicação direta com grupos criminosos (mostrando consequências claras), fiscalização seletiva e, simultaneamente, oferta de serviços e oportunidades (emprego, mentorias). No Brasil, adaptações dessa estratégia integradas a políticas sociais mostram efeitos promissores quando bem aplicadas. É preciso, porém, que a “dissuasão” venha com garantias de direitos e de acesso a alternativas.

3.     Inserção produtiva e educação técnica

Programas de formação profissional e de inserção no mercado de trabalho para jovens da periferia não são gasto são investimento em segurança. Iniciativas púbicas e parcerias com o setor privado que garantem estágios, bolsas e rotas reais de empregabilidade reduzem a atratividade do lucro rápido oferecido pelo crime.

4.     Atenção à saúde mental e ao uso de drogas

Redução de danos, centros de acolhimento e programas de tratamento são essenciais. Ao tratar usuários como sujeitos de direitos, diminuímos um dos vetores que alimentam a cadeia do tráfico — a dependência e a exploração. Modelos

5.     Fortalecimento das escolas e cultura local

Esporte, cultura, mentorias e atividades extracurriculares reduzem o tempo ocioso e constroem trajetórias alternativas ao crime. Investir em escolas das áreas mais vulneráveis e em profissionais capacitados para lidar com violência e traumas é central.

Por fim, não podemos perder de vista uma verdade incômoda: medidas somente repressivas, espetaculares e isoladas não funcionam. Prisões indiscriminadas, operação midiática e abandono do pós-prisão ampliam o problema ao fragmentar redes sociais e criar redes de ressentimento que alimentam as facções. Assim como não funciona uma política social paliativa sem coordenação com segurança. Precisamos de política pública integrada: educação, saúde, assistência social, segurança pública e emprego com metas claras e indicadores.

Minha experiência como vereadora me ensinou que políticas públicas têm rosto: são jovens que deixam a escola, mães que não sabem a quem recorrer, professores que trabalham sem apoio. Se queremos perder menos jovens, temos de construir, rua a rua, escola a escola, políticas que devolvam perspectivas. Isso requer prioridade orçamentária, articulação entre esferas de governo e, acima de tudo, respeito às vozes das comunidades afetadas.

A pergunta política que fica é simples: queremos simplesmente reagir à violência, ou queremos preveni-la de forma permanente, transformando as condições que tornam nossos jovens vulneráveis? Para mim, a resposta é clara e exige coragem para investir em prevenção, inclusão e cuidado. Só assim teremos esperança real de tirar nossos jovens das mãos do tráfico e devolver às cidades o que elas mais precisam: futuro.

Adriana Ramalho
Ex-vereadora e militante por políticas públicas de juventude, mulher e inclusão social.

Fonte: AL9 Comunicação

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