Vai rolar coisa boa na cena cultural de Manaus. O ensaio aberto do projeto “Asé Ori”, da multiartista ISIS de Manaus, já tem data marcada: dia 24 de abril, às 19h, na Escola Superior de Artes e Turismo da Universidade do Estado do Amazonas (ESET/EA – UEA). E não é só apresentação não, viu — depois ainda tem aquele bate-papo massa com o público.
A proposta chega com tudo, misturando ancestralidade com a vivência da periferia, num trabalho que é tanto espetáculo quanto pesquisa. A apresentação vai contar com intérprete de Libras e, logo depois, ISIS junto com a equipe abre a roda pra trocar ideia sobre os temas da obra, as técnicas corporais e todo o processo criativo.
O projeto nasceu dentro da universidade, como parte de uma pesquisa de iniciação científica, que investiga identidade cultural a partir da própria criação cênica. Ou seja, é arte que também pensa, que cutuca e faz refletir — bem no estilo de quem vive e sente a cultura na pele.
Pra ISIS, esse trabalho tem um peso especial. É o primeiro projeto profissional dela no teatro e também carrega vivências importantes que teve em Salvador, onde mergulhou nas danças dos orixás e na cultura afro. E não foi só estudo, não — foi reencontro mesmo, daqueles de mexer com o coração.
“Fiquei mais de 20 anos sem ir a Salvador, onde vivi minha primeira infância. Lá tenho familiares paternos. Foi uma reconexão com raízes, lugares, comidas, afetos. E também a criação de novas relações, como adulta – conhecer artistas, bares, festas”, explicou.
E é dessa mistura de vivência que nasce o conceito de “Encruzilhada entre Norte e Nordeste”, juntando o tempero amazônico com a força baiana. A ideia é mostrar que ancestralidade não é só sangue, não — é também caminho, encontro e escolha.
“São as relações que a gente encontra pelo caminho, as pessoas que congregamos e escolhemos como família”, complementa.
E olha, o negócio vai além do palco. O “Asé Ori” também tem uma pegada visual forte, com foto-performance feita em Salvador, juntando elementos dos orixás com a estética da periferia. É tipo ver Oxóssi de boné, Oxum com atitude — tudo com muito significado.
“Foi pensando nessa estética que comecei a juntar as coisas tradicionais dos orixás. São culturas que estão inseridas no meu corpo, que fazem parte da minha história – não são escolhas aleatórias”, pontua a artista.
A estética do trabalho mistura afrofuturismo com o tal do neoregionalismo — aquele jeito amazônico de se expressar sem cair no clichê. No palco, isso aparece com elementos do dia a dia da quebrada, tipo óculos, boné e sandália Kenner, tudo dialogando com o sagrado.
“Essa construção estética, que traz a minha linguagem, une o tradicional dos orixás com os elementos utilizados pela juventude da periferia, como óculos, boné, a sandália Kenner e outros elementos dessa cultura”, explica ISIS.
No fim das contas, o espetáculo vira quase uma conversa íntima com o público. É autobiográfico, mistura teatro, memória e espiritualidade, e ainda presta homenagem à mãe da artista, aos orixás e ao candomblé.
E não para por aí, não. No dia 27 de abril, tem mais um ensaio aberto, dessa vez na Escola Estadual Sebastião Filho Loureiro, às 15h, também de graça e com intérprete de Libras.
O projeto é realizado pela Pedra de Fogo Produções e conta com uma rede de apoio que fortalece a cena cultural local, incluindo grupos, instituições e políticas públicas que ajudaram a tirar a ideia do papel.
No fim das contas, “Asé Ori” é aquele tipo de trabalho que nasce da vivência, cresce na coletividade e chega pra somar. É arte com raiz, com axé e com a cara do povo — daquele jeitinho caboclo, cheio de história pra contar.







